Prova de Residência Médica: Rotura Traumática de Aorta e Alargamento do Mediastino
Prova de Residência Médica: Rotura Traumática de Aorta e Alargamento do Mediastino
Caros colegas, estamos diante da segunda causa mais comum de morte no trauma fechado, perdendo apenas para o TCE grave. A Rotura Traumática de Aorta (RTA) é uma sentença de morte imediata para 80% das vítimas na cena do acidente. Os 20% que chegam vivos ao hospital carregam uma “bomba-relógio” no mediastino: um hematoma contido apenas pela fina camada da adventícia ou pleura parietal.
O diagnóstico exige um índice de suspeição altíssimo baseado no mecanismo do trauma (desaceleração rápida). Como editor do saudeaz.com.br, alerto: perder os sinais radiológicos sutis no Raio-X de sala é imperdoável.
Para consulta das diretrizes vasculares e de trauma mais recentes, acessem:
- AAST – American Association for the Surgery of Trauma Guidelines
- SVS – Society for Vascular Surgery Clinical Practice Guidelines
- Radiopaedia: Traumatic Aortic Injury Imaging
Mecanismo e Anatomia da Lesão
A RTA ocorre tipicamente em colisões frontais (>60 km/h) ou quedas de altura (>3 metros). O mecanismo é a desaceleração súbita. O coração e o arco aórtico são móveis, mas a aorta descendente é fixa à coluna torácica. Essa diferença de mobilidade cria uma força de cisalhamento no Istmo Aórtico (logo após a saída da artéria subclávia esquerda e ligamento arterioso), local de >90% das roturas.
Classificação de Vancouver (SVS) – Vital para Conduta
Não tratamos todas as lesões da mesma forma. A tomografia dita a regra:
- Grau I: Lesão intimal (pequeno flap). Conduta: Terapia Medicamentosa (Anti-impulso).
- Grau II: Hematoma intramural. Conduta: Reparo (TEVAR) ou Conservador rigoroso.
- Grau III: Pseudoaneurisma (abaulamento da parede). Conduta: Reparo Endovascular (TEVAR) Urgente.
- Grau IV: Rotura livre (hemotórax maciço). Conduta: Cirurgia Emergencial (altíssima mortalidade).
O Raio-X de Tórax: A Pista Inicial
Na sala de trauma, o paciente instável não vai à Tomografia. O Raio-X de tórax AP supina é seu único amigo. Se você vir um mediastino alargado (>8 cm ao nível do arco), acenda o alerta vermelho. Mas cuidado: técnica ruim (paciente mal posicionado) alarga o mediastino artificialmente.
| Sinal Radiológico (RX) | Descrição / Significado |
|---|---|
| Alargamento do Mediastino | Largura > 8 cm ao nível do botão aórtico. O sinal mais sensível, porém pouco específico. |
| Borramento do Botão Aórtico | Perda do contorno nítido da aorta descendente proximal. |
| Desvio da Traqueia/Esôfago | Desvio para a direita (empurrados pelo hematoma). Sonda nasogástrica desviada é um excelente marcador. |
| Depressão do Brônquio-Fonte Esquerdo | Ângulo traqueobrônquico aumentado ou brônquio esquerdo rebaixado > 140 graus. |
| Cap de Pleura Apical | Opacidade no ápice pulmonar esquerdo (sangue dissecando a pleura apical). |
Terapia Anti-Impulso: O “Beta-Block” Salvador
Diagnosticou ou suspeitou fortemente? Enquanto prepara a Angio-TC ou o TEVAR, você deve controlar o dP/dt (a força de ejeção do ventrículo). O objetivo é impedir que o pico de pressão rompa a adventícia.
- Alvo: Pressão Sistólica < 100 mmHg e Frequência Cardíaca < 60 bpm.
- Droga de Escolha: Esmolol (Beta-bloqueador de ação ultracurta). Titulável e seguro.
- Segunda Linha: Nitroprussiato (apenas APÓS beta-bloquear, para evitar taquicardia reflexa).
Tratamento Definitivo: A Era Endovascular (TEVAR)
A cirurgia aberta (toracotomia + clampeamento aórtico + bypass) caiu em desuso devido à alta taxa de paraplegia e mortalidade. Hoje, o padrão-ouro é o TEVAR (Thoracic Endovascular Aortic Repair).
A endoprótese é inserida via artéria femoral e cobre o orifício da lesão por dentro. Vantagens: menor sangramento, não precisa de circulação extracorpórea (CEC), menor risco de isquemia medular. Se a lesão for muito próxima à Subclávia Esquerda, pode ser necessário cobri-la (“Zone 2 coverage”) e fazer um bypass carótido-subclávio posteriormente.
Estudos de Caso: Decisões na Sala de Trauma
Caso 1: O “Politrauma Instável”
Cenário: Acidente moto vs caminhão. Paciente com fratura de bacia instável, baço roto e suspeita de lesão de aorta. PA 80/50.
Dilema: A aorta mata, mas o baço e a bacia estão matando agora.
Conduta: Controle de danos abdominal/pélvico PRIMEIRO. A lesão de aorta contida (Grau III) pode esperar 24-48h sob controle pressórico (Esmolol) enquanto se resolve a hemorragia ativa abdominal.
Caso 2: A Sonda Desviada
Cenário: RX de tórax mostra alargamento mediastinal duvidoso, mas a Sonda Nasogástrica está curvada para a direita.
Interpretação: Sinal altamente específico de hematoma mediastinal empurrando o esôfago.
Conduta: Angio-TC de Aorta (Padrão-Ouro) imediata.
FAQ: Perguntas Cruciais de Prova
- Qual o local mais comum de ruptura?
O Istmo Aórtico (logo distal à subclávia esquerda), devido à fixação pelo ligamento arterioso. - Angio-TC ou Aortografia?
Angio-TC (Multislice) é o padrão-ouro atual (sensibilidade/especificidade ~100%). Aortografia por cateter ficou apenas para o momento do tratamento (TEVAR). - Ecocardiograma Transesofágico (ETE) serve?
Sim, pode ser usado na sala de cirurgia ou em pacientes instáveis demais para ir à TC, mas é operador-dependente e tem “pontos cegos”. - Tratamento conservador existe?
Sim, para lesões Grau I (intimal) e algumas Grau II, com controle rigoroso de PA e imagem seriada. - Principal complicação tardia do TEVAR?
Endoleak (vazamento) ou migração da prótese. Exige seguimento tomográfico vitalício. - Diferença de pulso nos membros superiores?
Sugere lesão envolvendo a artéria inominada ou subclávia (Pseudocoarctação aguda). - Sinal da “Faixa Paratraqueal Direita”?
Espessamento > 5mm da faixa de tecido mole à direita da traqueia no RX. Sinal sutil de hematoma. - Risco de Paraplegia?
Ocorre por isquemia da Artéria de Adamkiewicz. Menor no TEVAR que na cirurgia aberta, mas ainda existe (especialmente se cobrir longos segmentos da aorta torácica). Drenagem liquórica pode ser necessária. - Betabloqueador em paciente hipotenso?
Cuidado! Se o paciente tem choque hemorrágico por outra causa (baço/fígado), não use beta-bloqueador. Priorize a reanimação com sangue. Só inicie Esmolol se a hemodinâmica estiver estável. - Fratura de 1ª e 2ª costelas e Aorta?
Associação clássica. A energia necessária para quebrar a 1ª costela é imensa e frequentemente lesa o arco aórtico.
Dicas e Pegadinhas
Não “trate” o RX: O alargamento mediastinal no RX tem alto valor preditivo negativo (se normal, provavelmente não tem lesão), mas baixo valor preditivo positivo (muitos falsos positivos por RX supina/portátil). O RX indica a TC, não a cirurgia.
Prioridades: A lesão aórtica contida (Grau I-III) raramente rompe nas primeiras horas se a pressão for controlada. Não opere a aorta se o paciente estiver sangrando ativamente no abdome ou pelve. Aorta é “Delayed Repair” (reparo postergado) na maioria dos politraumas.
Simulado de Trauma Vascular
Você consegue identificar a “bomba-relógio” no tórax? Teste seu conhecimento.
Simulado: Rotura de Aorta
Diagnóstico Radiológico e Manejo Endovascular (TEVAR)
Resultado Final
Conclusão
A Rotura Traumática de Aorta exige respeito, não pânico. O diagnóstico é radiológico, o controle inicial é medicamentoso (Beta-block) e o tratamento definitivo é minimamente invasivo (TEVAR). Salvar esses pacientes depende de manter o índice de suspeição alto em qualquer desaceleração grave. Continue aprofundando seus estudos em cirurgia vascular no saudeaz.com.br.
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Como Passar na Prova de Residência
Como Passar na Prova de Residência
Prova de Residência Médica: Tamponamento Cardíaco e Tríade de Beck
Prova de Residência Médica: Trauma Torácico, Pneumotórax Hipertensivo e Drenagem
Avaliação inicial do politraumatizado (ABCDE do ATLS): Como Passar na Prova de Residência
Prova de Residência Médica: Manejo de via aérea difícil e indicações de cricotireoidostomia
Como Passar na Prova de Residência
Avaliação inicial do politraumatizado (ABCDE do ATLS), manejo de via aérea difícil e indicações de cricotireoidostomia, trauma torácico com pneumotórax hipertensivo e drenagem torácica, hemotórax maciço e indicação de toracotomia de reanimação, tamponamento cardíaco e tríade de Beck, contusão pulmonar e fraturas de arcos costais (tórax instável), rotura traumática de aorta e alargamento do mediastino,
trauma abdominal fechado com instabilidade hemodinâmica e indicação de laparotomia, manejo não operatório de lesões de vísceras maciças (fígado e baço), trauma abdominal penetrante por arma de fogo e arma branca, síndrome compartimental abdominal, cirurgia de controle de danos (damage control) e a tríade letal (acidose hipotermia e coagulopatia),
trauma pélvico com choque hemorrágico e uso de fixadores ou lençol pélvico, trauma renal e hematúria, trauma de bexiga e uretra (contraindicação de sondagem vesical), trauma cranioencefálico leve moderado e grave (Escala de Coma de Glasgow), hematoma extradural e intervalo lúcido, hematoma subdural agudo, trauma cervical penetrante e conduta nas zonas I II e III,
queimaduras de segundo e terceiro grau e cálculo de reposição volêmica (Fórmula de Parkland), lesão por inalação e queimadura de vias aéreas, trauma vascular de extremidades e síndrome compartimental de membros, trauma raquimedular e choque neurogênico.
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