O Sistema Gastrointestinal: Entre a Infecção e a Autoimunidade
“O trato digestivo é o maior órgão imunológico do corpo humano. No Brasil, ele é o campo de batalha onde doenças infecciosas endêmicas colidem com a ascensão das doenças inflamatórias típicas do estilo de vida ocidental.”
As doenças do aparelho digestivo representam uma das principais causas de internação e morbi-mortalidade no Brasil. A transição epidemiológica criou um cenário híbrido: ainda lutamos contra doenças negligenciadas (parasitoses, Chagas), enquanto enfrentamos uma explosão de obesidade, esteatose hepática (MASLD) e câncer colorretal.
Quiz: Gastroenterologia Brasileira
Autoral: Portal SaudeAZSelecione seu nível:
Estudante / Público
Conceitos básicos: Gastrite, Refluxo e Sintomas.
Residente / Clínico
H. pylori, Diverticulite, Pancreatite Aguda e Cirrose.
Especialista
Chagas, DII (Brasil), Câncer Gástrico e Hepatologia.
Quantas questões?
Resultado Final
Aprofunde-se nos temas:
1. Esôfago: O Dilema DRGE vs. Chagas
A pirose (azia) é uma queixa universal, mas o diagnóstico diferencial no Brasil exige atenção especial.
Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE)
Afeta cerca de 12-20% da população urbana brasileira. O padrão-ouro diagnóstico evoluiu da endoscopia simples para a pHmetria e Impedanciometria, especialmente em casos de DRGE não erosiva ou sintomas atípicos (tosse, rouquidão). O tratamento baseia-se em Inibidores de Bomba de Prótons (IBPs) e mudanças no estilo de vida, com a cirurgia de fundoplicatura (Nissen) reservada para casos refratários ou anatômicos graves.
Megaesôfago Chagásico
Endêmico em várias regiões, é causado pela destruição dos plexos mioentéricos (Auerbach) pelo Trypanosoma cruzi. A acalásia (falta de relaxamento do esfíncter inferior) causa disfagia progressiva. O diagnóstico é confirmado por manometria e sorologia (Machado-Guerreiro/ELISA). O tratamento varia de dilatação pneumática a cirurgias como a Cardiomiotomia a Heller.
2. Estômago: A Guerra contra o H. pylori
O Brasil possui alta prevalência de infecção por Helicobacter pylori (>60% em algumas áreas), o principal fator de risco para úlcera péptica e Adenocarcinoma Gástrico.
IV Consenso Brasileiro de H. pylori
A erradicação é recomendada não apenas para úlceras, mas para dispepsia funcional, histórico familiar de câncer gástrico e uso crônico de AINEs. Devido à crescente resistência à Claritromicina, esquemas quádruplos (com Bismuto) ou terapias concomitantes ganham força no país.
3. Intestinos e a Emergência das DIIs
O Brasil vive um aumento vertiginoso na incidência de Doença de Crohn e Retocolite Ulcerativa, aproximando-se de taxas europeias nas regiões Sul e Sudeste.
Doença Inflamatória Intestinal (DII)
O diagnóstico diferencial com Tuberculose Intestinal é um desafio crucial no nosso meio, pois o tratamento biológico (imunossupressor) pode ser fatal em um paciente com tuberculose ativa não diagnosticada. O uso de Calprotectina Fecal para monitoramento tornou-se padrão.
Síndrome do Intestino Irritável (SII)
Doença funcional baseada nos Critérios de Roma IV (dor abdominal associada à defecação). No Brasil, a sobreposição com parasitoses (Giardíase, Estrongiloidíase) exige exclusão parasitológica antes do diagnóstico definitivo de SII.
4. Pâncreas e Vias Biliares
A Pancreatite Aguda no Brasil é predominantemente biliar (cálculos), seguida pela alcoólica. O manejo inicial agressivo com hidratação (Ringer Lactato) nas primeiras 24h define o prognóstico.
O Câncer de Pâncreas (Adenocarcinoma) continua sendo um desafio diagnóstico, frequentemente descoberto em estágios irressecáveis. A icterícia indolor (Sinal de Courvoisier-Terrier) é o clássico sinal de alerta tardio.
5. Fígado: Hepatologia Tropical
Além da cirrose alcoólica e viral (Hepatite C em declínio devido aos antivirais de ação direta), o Brasil lida com:
- Esquistossomose Mansônica: Causa hipertensão portal pré-sinusoidal. Diferente da cirrose, a função hepática é preservada, mas o risco de hemorragia digestiva por varizes esofágicas é altíssimo.
- MASLD (Doença Hepática Gordurosa): A nova epidemia, ligada à síndrome metabólica, que já é a principal causa de transplante hepático em alguns centros.
Conclusão: O Olhar Brasileiro
A Gastroenterologia no Brasil exige um clínico atento que não apenas domine a tecnologia endoscópica avançada, mas que também saiba perguntar sobre a origem do paciente (zona endêmica de Chagas?), seus hábitos alimentares e investigar parasitoses antes de rotular doenças funcionais ou iniciar imunossupressão. A medicina tropical encontra a alta tecnologia.


























