Prova de Residência Médica: Trauma Torácico, Pneumotórax Hipertensivo e Drenagem
Prova de Residência Médica: Trauma Torácico, Pneumotórax Hipertensivo e Drenagem
Prezados colegas, bem-vindos a mais uma sessão de alta complexidade no saudeaz.com.br. O trauma torácico é responsável por 25% das mortes em politraumatizados. Dentre as lesões letais, o Pneumotórax Hipertensivo ocupa o topo da pirâmide de urgência.
Não existe “esperar o Raio-X” aqui; existe diagnóstico clínico e ação imediata. Hoje, vamos dissecar a fisiopatologia, a técnica cirúrgica da drenagem torácica (toracostomia com tubo) e as complicações que diferenciam o cirurgião experiente do novato.
Fisiopatologia: O Mecanismo de Válvula Unidirecional
O conceito chave é o “aprisionamento de ar”. Uma lesão no parênquima pulmonar ou na parede torácica permite que o ar entre no espaço pleural durante a inspiração, mas o tecido colaba e impede sua saída na expiração. O resultado é um aumento progressivo da pressão intrapleural positiva.
A Cascata do Choque Obstrutivo
O aumento da pressão pleural não apenas colaba o pulmão ipsilateral (hipóxia); ele empurra o mediastino para o lado oposto. Isso comprime a veia cava superior e inferior, diminuindo drasticamente o retorno venoso (pré-carga). Sem retorno venoso, não há débito cardíaco. O paciente morre de choque obstrutivo, e não apenas de insuficiência respiratória.
Diagnóstico Clínico: Proibido Pedir Raio-X
Repitam comigo: Pneumotórax Hipertensivo é diagnóstico clínico. Se você pede um Raio-X em um paciente chocado com sinais torácicos, você está cometendo negligência. Os sinais clássicos são:
- Desvio da Traqueia: Para o lado oposto (sinal tardio).
- Turgência Jugular: Pela obstrução da cava.
- Hipertimpanismo: À percussão do hemitórax afetado.
- Ausência de Murmúrio Vesicular: Silêncio respiratório.
- Hipotensão/Choque: O marcador de gravidade.
Manejo Imediato vs Definitivo
| Procedimento | Indicação | Técnica (ATLS 10ª Ed) |
|---|---|---|
| Descompressão Torácica (Agulha) | Emergência absoluta (paciente morrendo). Ponte para drenagem. | Jelco 14G, 5º Espaço Intercostal (EIC), linha axilar média ou anterior (adultos). Em crianças, 2º EIC linha hemiclavicular ainda é aceito. |
| Toracostomia Digital (Dedo) | Preferível à agulha se cirurgião experiente disponível. | Incisão com bisturi no 5º EIC, dissecção romba e inserção do dedo até a pleura. |
| Drenagem Torácica Fechada (Tubo) | Tratamento Definitivo. | Tubo 28-32 Fr (Trauma), 5º EIC, Triângulo de Segurança, conectado a selo d’água. |
A Técnica da Drenagem Torácica: Passo a Passo
Para mais detalhes visuais, consulte nosso guia de procedimentos no saudeaz.com.br.
- Posicionamento: Braço abduzido acima da cabeça.
- Triângulo de Segurança: Borda lateral do peitoral maior, borda anterior do grande dorsal, linha do mamilo (5º EIC).
- Anestesia: Lidocaína 2% com vaso, infiltrando pele, periósteo e PLEURA (a dor pleurítica é intensa).
- Incisão: 2-3 cm, sobre a costela INFERIOR ao espaço desejado (para não lesar o feixe vasculonervoso que corre na borda inferior da costela superior).
- Dissecção: Romba com pinça Kelly curva, tunelizando por cima da costela até perfurar a pleura parietal.
- Exploração: Insira o dedo (exploração digital) para quebrar aderências e confirmar que está no espaço pleural (não no fígado!).
- Inserção: Tubo direcionado para posterior e superior (ar e líquido).
- Fixação: Ponto em “U” ou “Bailarina” e conexão imediata ao selo d’água.
Estudos de Caso: Decisões de Vida ou Morte
Caso 1: O Enfisema Subcutâneo “Homem Michelin”
Cenário: Paciente chega com edema gigantesco de face, pescoço e tórax, crepitação palpável. Saturação 88%. Dreno já passado, borbulhando.
Análise: O dreno pode estar mal posicionado (em subcutâneo) ou ser insuficiente (fístula aérea de alto débito).
Conduta: Checar permeabilidade do dreno. Se funcional e borbulhando muito, pode haver lesão de grande via aérea (brônquio-fonte). Indicação de broncoscopia e provável toracotomia.
Caso 2: Edema Pulmonar de Reexpansão
Cenário: Pneumotórax crônico drenado subitamente com saída de grande volume de ar/líquido. Paciente tosse e dessatura.
Fisiopatologia: A reexpansão rápida causa inflamação e aumento da permeabilidade capilar.
Prevenção: Em pneumotórax crônico ou grandes derrames, não drenar mais de 1000-1500ml de uma vez. Clampe o dreno se necessário.
Caso 3: Pneumotórax Aberto (“Ferida Soprante”)
Cenário: Ferimento por faca no tórax, fazendo barulho de sucção.
Erro: Ocluir o ferimento totalmente com gaze e fita. Isso transforma um pneumotórax aberto em hipertensivo!
Conduta: Curativo de 3 pontas (válvula unidirecional improvisada) imediato, seguido de dreno de tórax em sítio distante da lesão.
FAQ: O Que o Residente Pergunta no Plantão
- Qual o tamanho do dreno?
No trauma, sempre calibroso (28 a 32 Fr) para drenar sangue coagulado. Drenos finos (pigtail 14Fr) entopem com hemotórax. - Dreno borbulhando no selo d’água é normal?
Sim, se acabou de passar (saída do ar do pneumotórax). Se continua borbulhando após horas/dias, indica fístula aérea ativa (furo no pulmão não fechou). - O líquido do selo d’água deve oscilar?
Sim! A oscilação com a respiração prova que o dreno está pérvio e dentro da pleura. Se parou de oscilar: ou o pulmão expandiu totalmente, ou o dreno está obstruído/dobrado. - Quando retirar o dreno?
Critérios: Pulmão expandido no RX, débito líquido < 100-200ml/24h (seroso), sem borbulhamento (fístula fechada). - Preciso clampear o dreno para tirar?
Polêmica. A maioria dos serviços apenas pede manobra de Valsalva na retirada para evitar entrada de ar. Clampear antes serve para “teste de tolerância” em casos duvidosos. - O que é o “Sinal do Menisco” ou “Sulco Profundo”?
No RX de tórax em decúbito dorsal (paciente na prancha), o ar sobe para a região anterior e diafragmática, aprofundando o seio costofrênico. Único sinal de pneumotórax no doente deitado. - Drenagem bilateral em PCR traumática?
Sim. Em AESP (Atividade Elétrica Sem Pulso) traumática, descomprimir o tórax bilateralmente é mandatório para descartar causa obstrutiva reversível. - Antibiótico profilático na drenagem?
O ATLS e guidelines recentes (EAST) recomendam uma dose de Cefazolina na inserção para reduzir risco de empiema em trauma penetrante. - Dreno saiu acidentalmente. O que fazer?
Curativo oclusivo (com vaselina se tiver) e observar. Se tiver desconforto, novo dreno em NOVO sítio. Nunca reintroduza o dreno velho (infecção certa). - Pneumotórax laminar (oculto na TC): dreno?
Se o paciente for para ventilação mecânica (pressão positiva), SIM (risco de virar hipertensivo). Se observação clínica em ar ambiente, pode-se observar.
Dicas e Pegadinhas de Prova
A Pegadinha do 2º Espaço: Antigamente, puncionava-se no 2º espaço intercostal na linha hemiclavicular. O ATLS 10ª mudou para o 5º espaço intercostal (mesmo lugar do dreno) para adultos, pois a parede no 2º espaço é mais espessa e a agulha muitas vezes não chegava na pleura.
Cuidado com o Feixe: O feixe vasculonervoso (Veia, Artéria, Nervo) passa na borda INFERIOR da costela. Sempre passe a agulha/bisturi na borda SUPERIOR da costela de baixo.
Simulado de Toracostomia e Pneumotórax
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Conclusão
O dreno de tórax é o melhor amigo do cirurgião de trauma. Ele resolve 85% das lesões torácicas penetrantes sem necessidade de toracotomia aberta. Mas sua má indicação ou técnica ruim pode matar por hemorragia (lesão intercostal) ou infecção (empiema). Mantenha a técnica estéril e a anatomia na ponta dos dedos. Continue seus estudos em saudeaz.com.br.
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Como Passar na Prova de Residência
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Como Passar na Prova de Residência
Avaliação inicial do politraumatizado (ABCDE do ATLS), manejo de via aérea difícil e indicações de cricotireoidostomia, trauma torácico com pneumotórax hipertensivo e drenagem torácica, hemotórax maciço e indicação de toracotomia de reanimação, tamponamento cardíaco e tríade de Beck, contusão pulmonar e fraturas de arcos costais (tórax instável), rotura traumática de aorta e alargamento do mediastino,
trauma abdominal fechado com instabilidade hemodinâmica e indicação de laparotomia, manejo não operatório de lesões de vísceras maciças (fígado e baço), trauma abdominal penetrante por arma de fogo e arma branca, síndrome compartimental abdominal, cirurgia de controle de danos (damage control) e a tríade letal (acidose hipotermia e coagulopatia),
trauma pélvico com choque hemorrágico e uso de fixadores ou lençol pélvico, trauma renal e hematúria, trauma de bexiga e uretra (contraindicação de sondagem vesical), trauma cranioencefálico leve moderado e grave (Escala de Coma de Glasgow), hematoma extradural e intervalo lúcido, hematoma subdural agudo, trauma cervical penetrante e conduta nas zonas I II e III,
queimaduras de segundo e terceiro grau e cálculo de reposição volêmica (Fórmula de Parkland), lesão por inalação e queimadura de vias aéreas, trauma vascular de extremidades e síndrome compartimental de membros, trauma raquimedular e choque neurogênico.











