Neuropatias: Quando a Fiação do Corpo Entra em Curto
“A dor neuropática não é um alarme de dano tecidual; é um grito do próprio sistema de alarme. Compreender a anatomia do nervo periférico é a chave para desligar esse sinal.”
O Sistema Nervoso Periférico (SNP) conecta o cérebro e a medula ao resto do corpo. As neuropatias podem afetar fibras motoras (fraqueza), sensitivas (dormência, dor) ou autonômicas (hipotensão, disfunção erétil). A abordagem clínica começa respondendo a três perguntas: Onde está a lesão? Qual o tipo de fibra afetada? Qual a patologia subjacente?
Quiz: Neuropatias Periféricas
Autoral: Portal SaudeAZSelecione o nível de conhecimento:
Estudante / Público
Sintomas (formigamento, dor), Diabetes e B12.
Residente / Clínico
Diagnóstico topográfico, ENMG e Guillain-Barré.
Neurologista
Imunopatologia, CIDP, Genética e Fibras Finas.
Quantas perguntas deseja?
Resultado Final
Aprofunde-se nos temas:
1. Anatomia e Fisiopatologia: O Axônio e a Bainha
Para entender as doenças, precisamos entender a estrutura. O nervo é como um cabo elétrico:
- Axônio (O Fio de Cobre): A parte que transmite o impulso. Quando lesado (Neuropatia Axonal), a amplitude do sinal cai. A recuperação é lenta e depende de regeneração. Ex: Diabetes, Toxinas, Álcool.
- Bainha de Mielina (O Isolamento): A capa de gordura que acelera a condução. Quando lesada (Neuropatia Desmielinizante), a velocidade do sinal cai ou bloqueia. A recuperação pode ser rápida (remielinização). Ex: Guillain-Barré, CIDP.
2. Padrões Clínicos de Apresentação
Polineuropatia Simétrica Distal (“Em Bota e Luva”)
O padrão mais comum. É comprimento-dependente: afeta primeiro os nervos mais longos (pés), subindo gradualmente para pernas e mãos. Típico de causas metabólicas e tóxicas (Diabetes, Deficiência de B12, Quimioterapia).
Mononeuropatia Múltipla
Acometimento assimétrico e sequencial de nervos individuais não contíguos (ex: pé caído à direita + mão em garra à esquerda). No Brasil, Hanseníase é a principal suspeita, seguida de Vasculites.
Polirradiculoneuropatia
Afeta raízes e nervos, causando fraqueza proximal e distal simultânea. O protótipo agudo é a Síndrome de Guillain-Barré (paralisia flácida ascendente, arreflexia).
3. O Arsenal Diagnóstico
Eletroneuromiografia (ENMG)
O “estetoscópio” do nervo. Diferencia lesão axonal de desmielinizante, localiza o ponto de compressão (ex: Túnel do Carpo) e define gravidade. Essencial para classificar a doença.
Biópsia de Pele (Fibras Finas)
A ENMG convencional avalia apenas fibras grossas. Para pacientes com muita dor (queimação) mas ENMG normal, suspeita-se de Neuropatia de Fibras Finas. A biópsia conta a densidade de fibras intraepidérmicas.
4. Principais Etiologias no Brasil
Neuropatia Diabética
Presente em até 50% dos diabéticos. Começa com perda de sensibilidade (risco de pé diabético) e evolui para dor. O controle glicêmico estrito previne a progressão, mas não reverte o dano estabelecido.
Hanseníase (Neural Pura)
O Brasil é endêmico. O bacilo tem predileção por nervos periféricos, causando espessamento e dor à palpação (neurite). Pode ocorrer sem lesões de pele visíveis (Forma Neural Pura), desafiando o diagnóstico.
Hereditárias (Charcot-Marie-Tooth)
A neuropatia hereditária mais comum. Pés cavos, pernas em “garrafa de champanhe invertida” e história familiar arrastada.
Imunomediadas (CIDP)
A Polineuropatia Desmielinizante Inflamatória Crônica (CIDP) é o “Guillain-Barré crônico”. Evolução > 8 semanas, fraqueza proximal e distal. Responde bem a Imunoglobulina e Corticoides.
5. Tratamento da Dor Neuropática
A dor neuropática (choque, queimação, agulhada) não responde a analgésicos comuns. A primeira linha de tratamento inclui:
- Antidepressivos Duais: Duloxetina, Venlafaxina (atuam na via inibitória descendente da dor).
- Anticonvulsivantes (Ligantes Alfa-2-Delta): Pregabalina, Gabapentina (bloqueiam canais de cálcio, reduzindo a liberação de neurotransmissores excitatórios).
- Tricíclicos: Amitriptilina, Nortriptilina (eficazes, mas com mais efeitos colaterais).
- Tópicos: Lidocaína, Capsaicina (para dor localizada).
Conclusão: O Diagnóstico Precoce Salva Funções
Nervos periféricos têm capacidade limitada de regeneração. Identificar a causa – seja uma deficiência de vitamina, uma compressão mecânica ou uma doença autoimune – antes que ocorra a morte axonal completa é a missão do neurologista. No Brasil, nunca esquecer de palpar os nervos: a Hanseníase ainda caminha entre nós.


























